
Com estas eleições comprovou-se um dos meus maiores receios: ainda não há alternativa política ao mainstream em Portugal.
E prova-o a abstenção. É que, com mais ou menos mortos, os cadernos eleitorais apontam para um afastamento, cada vez maior, dos cidadãos da democracia. Não sei se o voto obrigatório, com multa para os abstencionistas, é a solução. É uma reflexão que deixo para mais tarde.
É também sinal desta condição os resultados eleitorais. Dois partidos trouxeram Portugal até aqui: PS e PSD. É certo que o CDS também deu, ao longo do tempo, uma perninha ao PSD. Aliás, quem não se recorda dos submarinos. Independentemente deste facto, nenhum dos partidos pequenos cresce consideravelmente, como tem acontecido um pouco por toda a Europa.
E porque não crescem? O CDS não cresce porque os portugueses não são burros e sabem que Paulo Portas tem uma ambição desmesurada. O BE não cresce porque 1º se enganou no alvo a abater, que era claramente a direita e não só Sócrates; 2º, porque se recusou ao diálogo - o que é inaceitável em democracia. Em suma, ainda não percebeu o caminho que quer seguir. A CDU cresce pouco porque capitalizou algum descontentamento e tem um fiel eleitorado, mas tem pouca margem para crescer.
Destes três problemas, o do BE é o mais fácil de resolver, parece-me. Há um eleitorado entre o PS e a CDU que faz parte dos números da abstenção. Porquê? Não se revê nem num, nem noutro. Ou o BE decide capitalizar estes votos, ou vai nascer um novo partido/movimento em Portugal que o faça. Porque é preciso.
É preciso, quer o Bloco queira, quer não, um partido à esquerda capaz de policiar os governos do PS, como o CDS faz à direita com o PSD. Esse partido pode ser o BE, que não pode voltar a deitar abaixo governos do PS, aliando-se à direita.
Até porque, se o PS e o BE quiserem, nas próximas eleições poderão chegar ao poder em conjunto, angariando os votos dos descontentes com o plano da Troika. Uma última nota ainda para as sondagens. Se alguém tinha dúvidas que elas influenciam o voto, recordo que o resultado está à vista, e que não havia nenhum empate técnico entre PS e PSD.
2 comentários:
Algumas notas sobre este artigo
1- o Bloco não pretende ser policia de nenhum governo, pretende construir uma alternativa de governo. Ser policia de governo é aceitar ser gestor de um sistema que precisa de ser mudado de alto a baixo.
2- o Bloco não se enganou no adversário: sempre apontámos às políticas de direita e o FMI, apresentando alternativas para lhes responder.
Criticámos Passos Coelho e Portas pelo projecto neoliberal que defendem.
Quanto a Sócrates e ao PS que dirigiu até ontem, é um dos rostos dessa política de direita e não iria deixar de ser alvo de críticas e responsabilizado pelos erros e traições que protagonizou.
3 - O Bloco recusou o diálogo? com quem? se fala do FMI, é preciso dizer que essa instituição não tem legitimidade democrática para dialogar com ninguém neste país. Se fala de outras forças, é preciso dizer que o mais do que recusar o diálogo, o Bloco foi fiel ao seu programa a palavra dada aos eleitores e eleitoras.
4- Embora consiga mais um eleito, a CDU também perde alguns votos em relação a 2009.
5- Bloco e PS podem capitalizar descontentamento com políticas de austeridade... mas a austeridade foi a política que o PS aplicou ao país nos últimos anos, recusando alternativas válidas para lhe responder. A austeridade foi também o seu programa eleitoral... acha que o PS vai mudar? Não vai, porque esta é a sua natureza. Então porque haveria o Bloco de mudar? para ir para o poder a qualquer preço? ai sim, seria um partido igual aos outros.
6- Parece-me pois que a sua análise é muito baseada no mainstream jornalístico, tão cheio de ideias feitas e erradas sobre o Bloco. Antes de se lançar em tamanhas considerações, o Hugo deveria alargar um pouco o horizonte para compreender de facto o fenómeno que se propõe analisar, evitando repetir o que já é dito por muitos - e aqui há que incluir alguns e algumas que reclamam estar dentro do Bloco mas, de facto, não participam na sua vida interna.
André,
Antes de mais, obrigado pelo comentário. Espero que a Direcção do Bloco tenha uma posição diferente da sua. Senão, prevejo um desfecho pouco feliz para o Bloco, partido que estimo.
Sobre os seus 6 pontos:
1 - Ser policia do governo é o que o Bloco tem sido. Aliás, é hoje considerado o partido do "contra".
2 - Tem razão neste ponto. No entanto, o foco deveria ter sido mais PSD e CDS, para não hostilizar o eleitorado do PS.
3. Relativamente a este ponto, 80% dos portugueses achou o contrário de si e de mim (já agora) e democracia é o Reino do diálogo.
4 - Verdade, mas não invalida o meu argumento.
5 - O Bloco deve continuar o seu caminho contra a austeridade. Mas o caminho da Grande Vitória vence-se com pequenas vitórias. Não esperem uma mudança política de um dia para o outro. E que mal ou vergonha tem chegar ao poder chegando a um entendimento democrático? É pior ou melhor o governo entre PS+BE, um governo PS de maioria ou um com PSD+CDS? É preciso reflectir estas posições.
6 - Não julgue as pessoas que não conhece. Defendo esta opinião de entendimento à esquerda há muito. Aliás, pensava que a raiz e história do bloco fosse essa: um partido que se uniu contra as diferenças, em prol de uma voz e de um bem comum.
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